Trabalhando na
Surdina e disfarçados, os detetives adoram o perigo
e se tornam a salvação dos desconfiados de plantão
Leda Rosa
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Eles são os exterminadores da privacidade alheia. Durões e caras-de-pau, não desistem até conseguir seu objetivo. Os detetives particulares são uma categoria muito bem paga, que tem como maior prazer desvendar os segredo dos outros. Mesmo que para isso tenham de bancar os gays ou tomarem facadas no nariz. Mostram a verdade nua e crua a quem os contrata. Foi assim com a dona de cãs M.F, que descobriu que o marido tinha, além da amante, uma filha. Ultimamente, um numero cada vez maior de pais vem contratando detetives que investiguem seus filhos. Objetivo: descobrir se os adolescentes estão envolvidos com drogas. Para os Sherlock Holmes modernos, o único inconveniente da profissão é que a desconfiança costuma tomar conta do cotidiano. Os detetives passam a suspeitar até da própria família. |
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" Não tem jeito, vi tanta coisa nesses anos de profissão... Desconfio da minha sombra", admite Angela Bekeredjian, com 33 anos de experiência e uma das detetives mais famosas da cidade. Filha de pai militar, Angela nasceu em Barcelona, na Espanha. "O regime de minha família era muito rígido na minha infância. Isso influenciou minha escolha pela profissão de detetive, que me dava mais liberdade, bons ganhos e contato freqüente com pessoas diferentes", explica ela, em frente a uma parede enfeitada com diplomas emoldurados. Eles comprovam que Angela se formou em Psicologia, fala seis idiomas e fez cursos de balística, grafologia técnica, técnicas antisequestro e escolta. Como se não bastasse, outros certificados atestam seu bom desempenho nos cursos de música clássica, dança flamenca e teatro. " O bom detetive não pode ser notado pela pessoa que está sendo seguida. Muitas vezes precisamos nos disfarçar de acordo com o local. Esses cursos voltado para o lado artístico ajudam a nos desinibir", explica ela, que perdeu a conta dos personagens que precisou interpretar. " |
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Já fiz de tudo. De gari a médium incorporando "Preto Velho", conta, soltando uma de suas gostosas gargalhadas. Uma igualzinha foi dada por Angela durante um flagrante de adultério. " Não conseguia parar de rir quando a minha cliente, uma moça muito bonita, que tinha sido miss, entrou no quarto de sua casa e comprovou sua desconfiança. Ela acendeu a luz e viu o marido transando com uma prostituta feinha que não chegava nem aos pés delas. A primeira coisa que ela berrou para o infiel foi 'Mas você não estava impotente, seu desgraçado?"', lembra a detetive que foi junto com a Polícia Militar, a cliente, o marido e a prostituta até a delegacia da região, lavrar o auto flagrante. O adultério ainda é crime previsto no artigo 240 do Código Penal e constitui, em média, 70% dos casos investigados pelos detetives particulares. O casal de amantes costumas ser apresentado ao delegado exatamente como foi encontrado na hora do flagrante. É comum os amantes irem à delegacia cobertos somente com lençóis. " Não sei bem porquê, mas o fato é que o membro dele demorou muito para perder a rigidez, o que só fez aumentar o ridículo da vestimenta com lençol e o ódio dela, que não se conforma. Ele afirma que era impotente, mas sempre que possível satisfazia sua tara, que era transar com prostitutas no quarto do casal. Pouco tempo depois de registrar o boletim de ocorrência com o flagrante, eles se separaram", recorda a detetive. " A maioria das pessoas que vão procurar um detetive por desconfiar de traição já está com o casamento acabado. São pessoas que tentaram de tudo, do macumbeiro ao tarô, e nada funcionou. Somos a última opção", diz Angela, coçando a cicatriz no nariz, resultado de uma facada que levou de um marido infiel. " Quando ele descobriu que ela já sabia de tudo e que eu era a responsável por isso, veio para cima de mim, completamente louco. Se eu não fosse esperta, ele teria me passado a faca no pescoço de um lado a outro", diz, tranqüila, antes de ser interrompida pelo telefonema de um cliente. Enquanto fala no aparelho, Angela tira de um envelope várias fotos onde se vê uma mulher descendo de um carro e entrando em outro, onde troca beijos ardentes com um homem. Profissional , Angela fez o relato revelador. " Olha nós conseguimos estamos com as fotos da sua esposa aqui. Mostra bem direitinho. Calma. É eu sei como é duro. O senhor passa aqui às quatro da tarde? Então, ta, conversamos com mais calma", diz ela, séria, antes de desligar e passar alguns segundos quieta. Angela adquiriu na prática boa parte da seriedade com a qual encara a dor da traição sentida pelos clientes. " O primeiro flagrante que dei na vida foi o meu mesmo. Peguei meu marido na cama com uma dona que se dizia minha amiga. Foi quando senti que tinha jeito para detetive. Depois, com os anos, descobri muitas outras traições dele", lembra, antes de sorrir para o ex-marido, Zacarias, que hoje a ajuda na administração da agência de detetives, que tem 12 agentes. Nós nos separamos, mas viramos amigos", diz, olhando para Zacarias, que sorri, envergonhado.
"Quando comprovam a traição por meio dos relatórios, com fotos ou gravações telefônicas, os homens choram como bebês. As mulheres ficam histéricas, falando palavrões e gritando. Ambos precisam de uma boa bebida para se acalmar", conta, com um sorriso tranqüilo. O bar dos traídos foi especialmente importante para acalmar um cliente que Elias jamais esqueceu. " O caso dele me marcou muito, porque era um homem muito carinhoso com a mulher e boa-pinta. Casados a dois anos, ele só saia de perto dela para ir jogar bola às sextas-feiras. Mas, para compensar a ausência, mandava flores em sua residência enquanto estava fora. Ele me procurou e nem chegou a dizer que estava desconfiado de alguma coisa. Disse que gostaria de conhecer um pouco mais a intimidade da mulher. Acabei descobrindo em conversas telefônicas que a mulher o traia justamente com o dono da floricultura durante os jogos de futebol", lembra. "Sexualmente ela tinha um relacionamento normal com meu cliente, mas com o amante era uma coisa quase animalesca, cheia de fetiches e objetos de sadomasoquismo". Quando apresentei o relatório ao marido, ele chegou a comentar, entre lagrimas e goles de uísque, que muitas vezes chegara mais cedo do jogo, mas, ao ver a perua da floricultura parada em frente ao prédio onde morava, ficava na padaria, dando um tempo para a mulher receber as flores e, sensibilizada, recebê-lo de forma ainda mais carinhosa", acrescenta Elias, com um sorriso cínico. O mesmo cinismo ele exercitou em outra oportunidade, quando um noivo o contratou para vigiar sua noiva, uma semana antes do casamento. " Ele havia me contratado dois anos antes, quando eram namorados, e eu lhe revelei que ela dava uns amassos com um colega de faculdade. Voltou a me ligar às vésperas do casamento. Ele instalou na casa da moça os equipamentos de escuta telefônica que lhe vendi. Durante o período do nosso contrato, que ia de segunda a sexta, não houve nada de anormal. Mas no início da madrugada de sábado a noiva do meu cliente ligou para marcar um encontro com o amante em um motel da Marginal Tietê. O cara era o mesmo da época da faculdade. Poucas horas antes de ir para a igreja, ela ainda ligou para uma amiga e contou que nunca iria deixar de ver o amante, porque ele transava muito bem. Fiquei numa dúvida terrível, porque meu cliente não havia me contratado para trabalhar naquele dia. Só ouvi a conversa porque demorei a desativar a escuta. Pedi a opinião de amigos e até da família. Terminei assistindo ao casamento com a minha mulher, com a fita da gravação no bolso."
Foi horrível. Pior ainda foi ter que ficar bem perto desse meu colega para ouvir o que o marido da minha cliente estava conversando com o amante, em um paredão onde os homossexuais ficavam se pegando. No fim, chamamos a cliente e ela desmaiou ao ver o marido, já na rua, no colo do mulatinho". "Outro caso que tem crescido muito nos últimos anos é de pais que me contratam para seguir o filho, preocupado com o possível envolvimento com drogas. Atualmente esse tipo de trabalho ocupa 30% dos casos que investigo", revela Elias, que em 1997 foi contratado por um empresário que já era seu cliente. Ele começou a desconfiar do filho, que começou a gastar muito dinheiro. "O filho tinha 19 anos e fazia cursinho à noite. Eu o segui durante cinco dias e ele só foi às aulas no primeiro. Nos outros, passava na porta do cursinho, em Santa Cecília, pegava duas moças e dois rapazes e ia para Guarulhos, num local onde os adolescentes se reúnem, próximo `Faculdade da Vila Rosália. Ali eles compravam uns papelotes de cocaína e usavam. Filmei tudo e mostrei para o meu cliente que internou o filho", lembra Elias. Elias é casado há cinco anos e pai de um menino.a desconfiança profissional acabou alcançando a mulher, ex-manequim. Elias prefere não revelar os nomes do filho e da mulher. "Quando ela liga dizendo que vai ao shopping passear fico de orelha em pé. Quase sempre acabo largando o trabalho para acompanhá-la " admite. "Certa vez segui durante 30 dias, uma mulher casada deslumbrante. O marido estava desconfiado porque ela não tinha mais interesse em transar com ele. Ela saía todo dia, um monte de homens mexiam com ela na rua, mas não dava bola para ninguém. Só ficava de loja em loja. Depois de um tempo chamei o marido para conversar. Perguntei como era o relacionamento dele com a mulher e ele disse que era normal. Aconselhei que ele fizesse com ela tudo o que sabia e praticava com outras mulheres.voltou seis meses depois, rindo de orelha a orelha, dizendo que o casamento estava uma maravilha", lembra Carlos Sant'Anna, detetive há 32 anos e presidente do Sindesp, o Sindicato dos Detetives Particulares de São Paulo, que tem cerca de 200 filiados. Mesmo com casos de comprovada fidelidade, Carlos preferiu não se casar. " Mas sou avô solteiro", diz para frisar a masculinidade. Igreja - Outro que investigou vários casados e casadas fiéis foi Marco Aurélio de Souza, de 32 anos e detetive há 17. "Uma cliente me contratou há alguns anos para seguir seu marido, que havia começado a sair sozinho todas as noites e a usar ternos sofisticados. Na primeira noite, vi quando ele entrou em uma igreja evangélica famosa. Na segunda noite ele fez a mesma coisa e entrei junto, porque o encontro com a amante podia ser lá dentro", recorda Marco. Armado com uma filmadora, o detetive deu azar ao ser confundido com um repórter da TV Globo, emissora que na época travava uma briga acirrada com a congregação evangélica. Cercado pelos fiéis, tomou muitos tapas e empurrões. " E todas as noites ele voltava à igreja. Uma semana depois disse para minha cliente que ele não tinha outra mulher mas sim uma nova religião. Em pouco tempo ele contou tudo a ela e a convidou para se batizar também. Hoje toda a família é dessa igreja", conta. Nem por isso Marco é menos desconfiado de sua mulher, com quem é casado há 10 anos e tem dois filhos. "Comecei a trabalhar ainda adolescente com meu pai, o Evódio Eloízio de Souza. As muitas coisas que vi entre casais acabaram se refletindo no meu dia-a-dia. Ligo toda hora para saber o que minha mulher está fazendo, claro que disfarçando para não dar muito na vista. Ela sabe como sou e encara numa boa", conta Marco, que coordena os cursos de Detetive na Central Única dos Detetives do Brasil, na rua 7 de Abril, 235, Centro. Os altos ganhos da profissão - para um iniciante em torno de R$ 2 mil e para os experientes a partir de R$ 8 mil" - fazem aumentar a cada dia o número de alunos, que acompanham as aulas pessoalmente ou por correspondência. " Mas, para ser um bom detetive, o fundamental mesmo é gostar da profissão, ter faro, cara-de-pau, muita prática e um bom arsenal de equipamentos", explica Angela. Uma das lições mais importantes que Marco procura transmitir aos futuros detetives é o cumprimento rápido e eficaz do trabalho, doa a quem doer. " Não se pode ter pena de entregar os outros, é preciso ser frio, durão. Somos pagos para isso". Entre unhadas e beijos
Não demorou muito para que o marido, um militar culto e de boa aparência financeira, a tirasse de São Paulo para uma casa simples, em uma cidade próxima a Botucatu, a três horas de viagem da Capital. " Ele dava tudo em casa e de uma hora para outra o dinheiro começou a escassear. Passei muita privação e ele dizia que eu precisava economizar para a educação das crianças." Na verdade, o dinheiro ia para a ex-secretária de seu marido, 13 anos mais jovem que M. e para quem o militar pagava tudo, inclusive a faculdade de Informática. " O primeiro detetive que contratei foi o Jefferson, um safado que me levou R$ 2 mil e desapareceu. Como precisava descobrir o que acontecia, contatei a Angela em outubro de 1997. ele foi ótima. Cobrou quase R$ 3 mil, mas valeu a pena, porque foi amiga e de total confiança. Desvendou tudo dois dias depois. Meu marido não só tinha uma amante como morava com ela em um subúrbio miserável em Sapopemba e era pai de uma menina", lembra M., que se separou judicialmente e entrou em depressão. " Não queria saber de mais nada. Perdi 15 quilos em 10 dias. Mas agora resolvi parar de chorar e me cuidar. A vida continua e me sinto vingada", diz ela, com um meio sorriso. " Durante as investigações, os agentes de Angela, sem querer fotografaram a amante do meu ex-marido aos beijos e abraços com um rapaz na frente da casa de Sapopemba. Mostrei as fotos a ele e disse que ele era pior que um corno, porque era um corno público." O empresário César Farias, de 34 anos, é um dos que defendem com entusiasmo a contratação de um bom, detetive quando há desconfiança no negócios. " O empresário não tem como fugir da crise que sempre ronda o País e da briga com os concorrentes. Perder tempo e ficar se preocupando para saber se está sendo roubado pelos empregados ou sócios torna quase impossível o bom desempenho", diz ele, dono de dois restaurantes, duas pizzarias e um mercado de atacado na cidade. Em 1997, César contratou os serviços de Marco Aurélio, que mantém uma agência de detetives formados em sua escola. " Precisava fazer uma viagem de um mês para o Pará. Ia tentar acertar a compra de uma fábrica de queijos e não podia acompanhar de perto o desempenho de meus gerentes, aos quais confiei as lojas. O Marco e o pessoal dele instalaram equipamentos e quando voltei pude comprovar que meus funcionários agiam dentro da maior honestidade", diz. César resolveu contratar Marco porque no ano anterior havia sido lesado por gerentes durante uma viagem de negócios de três meses. As investigações empresariais costumam ser mais caras do que os casos de família. " Mas vale a pena. Calculo que perdi, na primeira viagem, algo em torno de R$ 20 mil. Paguei menos de 10% desse total ao Marco para ter paz", diz, sorrindo. " O preço costuma ser mais alto porque temos de colocar especialistas sobre o assunto investigado para trabalhar dentro da empresas ou com os dados que conseguimos obter", explica Angela. " Os casos mais comuns são sobre desvio e roubos de cargas, venda e roubo de informações e espionagem empresarial", detalha ela, antes de frisar que não aceita caso de espionagem. " Só fazemos contra-espionagem, que é a proteção da empresa contra os que querem saber seus trunfos comerciais". |
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